Nem sempre é fácil tirar a criança da frente da tela. E talvez esse nem precise ser o objetivo.
Mais do que simplesmente reduzir o tempo diante de celulares, tablets e televisão, podemos criar oportunidades para que a criança volte a explorar o mundo com o corpo, a imaginação, as mãos, as perguntas e as relações. A própria Academia Americana de Pediatria recomenda que o planejamento familiar de mídia preserve espaço para outras experiências, como leitura, brincadeiras ao ar livre, jogos em família e hobbies.
Mas existe uma questão ainda mais interessante: o que oferecer quando a tela deixa de ocupar esse espaço?
Brincar é muito mais do que passar o tempo
Na abordagem Reggio Emilia, a criança é compreendida como protagonista de seus processos de aprendizagem, capaz de construir experiências, conhecimentos e significados nas relações com outras pessoas e com o ambiente.
Um dos conceitos mais conhecidos dessa abordagem é o das “cem linguagens”: diferentes formas pelas quais a criança pensa, explora, expressa e compreende o mundo — por meio do movimento, desenho, música, construção, fala, imaginação, natureza e tantas outras possibilidades.
Por isso, uma boa brincadeira não precisa ter um resultado pronto.
Ela pode começar com uma pergunta, um objeto, um espaço vazio ou simplesmente com um “e se…?”
A seguir, algumas ideias para transformar momentos sem tela em experiências de descoberta.
1. Caça ao tesouro: transformar a casa em território de investigação
Em vez de simplesmente esconder objetos e entregar pistas prontas, convide a criança a investigar.
“Será que conseguimos encontrar algo redondo?”
“Qual objeto poderia estar escondido perto de algo azul?”
A brincadeira ganha outra dimensão quando a criança precisa observar, comparar, levantar hipóteses e tomar decisões.
O adulto não precisa entregar todas as respostas. Pode acompanhar a investigação e fazer novas perguntas.
2. Uma cabana pode virar qualquer coisa
Alguns lençóis, almofadas e cadeiras podem ser suficientes para criar uma cabana.
Mas será que é uma cabana?
Pode ser uma nave espacial, uma floresta, uma casa, um esconderijo secreto ou qualquer outra coisa que a imaginação inventar.
O interessante está justamente em não definir tudo antes. A criança participa da construção do espaço e decide o que aquele lugar vai se tornar.
Na perspectiva de Reggio Emilia, o ambiente também tem papel educativo: os espaços podem ser organizados para favorecer relações, pesquisas e experiências.
3. Circuito de obstáculos: o corpo também pensa
Uma almofada para atravessar, uma corda para passar por baixo, uma linha no chão para equilibrar e um espaço para correr.
Não precisa de equipamentos sofisticados.
A criança pode experimentar diferentes movimentos, ajustar o corpo, testar possibilidades e até criar novas regras para o circuito.
E existe um detalhe importante: deixe que ela também ajude a construir o percurso.
Assim, não está apenas executando uma atividade. Está pensando sobre ela.
4. Teatro de faz de conta: quando a imaginação ganha voz
Separem algumas roupas, tecidos, caixas ou objetos que possam ganhar novos significados.
Depois, deixem a história acontecer.
Quem são os personagens?
Onde estão?
O que aconteceu?
O que acontece depois?
O faz de conta permite que a criança experimente diferentes papéis, desenvolva narrativas e encontre formas próprias de expressão.
Não existe necessidade de corrigir a história. Às vezes, o mais interessante é simplesmente escutar.
5. Massinha: criar sem precisar acertar
A massinha pode virar um animal, uma comida, uma cidade, um personagem ou algo que ainda não tem nome.
E não precisa existir um modelo para copiar.
Oferecer materiais e deixar que a criança descubra o que consegue fazer com eles abre espaço para exploração, criatividade e expressão.
A ideia das “cem linguagens” valoriza justamente diferentes formas de construir e comunicar conhecimentos e experiências.
6. Desenho coletivo: uma folha, muitas ideias
Estenda uma folha grande no chão ou sobre uma mesa.
Cada pessoa começa um desenho.
Depois, todos continuam o desenho uns dos outros.
A criança pode descobrir que aquilo que começou como uma casa pode virar uma floresta, que uma linha pode virar uma estrada e que o desenho de outra pessoa pode inspirar uma nova ideia.
Aqui, o resultado final importa menos do que o processo de criação compartilhada.
7. Mímica: brincar sem precisar falar
Uma pessoa escolhe um animal, profissão, personagem ou ação e tenta representar apenas com o corpo.
Os outros tentam descobrir.
Depois, troquem os papéis.
É uma brincadeira simples, mas que coloca o corpo como ferramenta de comunicação e exige atenção, observação e criatividade.
E ainda rende boas risadas.
8. Cozinhar juntos: a cozinha também pode ser espaço de descoberta
Preparar uma receita simples com a criança pode envolver muito mais do que seguir instruções.
Observar ingredientes, misturar, comparar tamanhos, sentir texturas, perceber cheiros, contar quantidades e acompanhar transformações são experiências que acontecem naturalmente durante o processo.
O adulto pode assumir o papel de parceiro da descoberta, fazendo perguntas em vez de antecipar todas as respostas.
“Por que será que a massa mudou?”
“O que você acha que vai acontecer agora?”
9. Explorar a natureza: sair para procurar perguntas
Uma caminhada pode se transformar em uma pequena investigação.
Procurem folhas diferentes, pedras, sementes, sombras, sons ou pequenos animais.
Em vez de transformar o passeio em uma aula cheia de informações, experimente perguntar:
- “Por que será que essa folha é diferente?”
- “De onde você acha que veio esse som?”
- “O que será que existe debaixo dessa pedra?”
A natureza oferece materiais, fenômenos e situações que despertam curiosidade e podem alimentar novas pesquisas.
10. Inventar uma brincadeira que ainda não existe
Essa talvez seja a mais importante.
Pergunte:
“Se você pudesse inventar uma brincadeira nova, como ela seria?” Deixe a criança criar as regras, escolher os materiais e explicar como funciona.
Depois, joguem juntos.
Nesse momento, ela deixa de ser apenas participante de uma brincadeira criada por outra pessoa e passa a ser autora de uma experiência. É uma maneira simples de exercitar autonomia, criatividade, comunicação e tomada de decisões.
E se a criança disser: “Estou entediada”?
Talvez não seja necessário resolver imediatamente. O tédio pode ser justamente o intervalo em que uma nova ideia começa a aparecer. Quando tudo está pronto, programado e disponível, sobra pouco espaço para inventar. Quando existe um pouco de vazio, a criança pode começar a procurar o que fazer, combinar objetos, criar histórias, experimentar possibilidades e descobrir seus próprios interesses.
Isso não significa abandonar a criança ou esperar que ela se entretenha sozinha o tempo todo. O adulto continua sendo importante: pode oferecer presença, materiais, perguntas e segurança sem precisar controlar cada etapa da brincadeira.
Menos tela não significa menos diversão
A proposta não é transformar a tecnologia em vilã.
É garantir que ela não ocupe todo o espaço destinado a outras experiências importantes da infância. A própria orientação da Academia Americana de Pediatria sugere incluir no cotidiano atividades como brincadeiras ao ar livre, leitura, jogos em família e hobbies.
Correr. Inventar. Construir. Desenhar. Perguntar. Explorar. Conversar. Fazer de conta. Tudo isso também é aprender.
E talvez uma das maiores riquezas da infância seja justamente ter tempo para descobrir o que fazer com o mundo ao redor.
No Viver Criança, acreditamos que brincar não é simplesmente preencher o tempo da criança. É criar experiências para que ela possa explorar, se expressar, conviver e construir suas próprias descobertas. 🌈